sexta-feira, 3 de julho de 2009

NOSSA IDENTIDADE - O QUE É SER REFORMADO? - PARTE 3




O que cremos:

A ênfase doutrinarista

1. Escritura (2 Timóteo 3:16)

Os reformados têm uma alta visão acerca da Escritura. Crêem que a Bíblia é a palavra de Deus inspirada, infalível e autoritativa. Duas passagens da Escritura iluminam a natureza e a autoridade da Escritura:

Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.. (2 Tim. 3:16-17)

Sabendo, primeiramente, isto; que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação, porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (II Pedro 1:20 - 21)

Inspirada, infalível e autoritativa são três palavras que os reformados freqüentemente utilizam para explicar sua visão da Escritura. Inspirada tem em vista a fonte da Escritura: Deus mesmo que fala por seu Espírito Santo através dos autores humanos. Infalível significa que a Escritura é verdadeira e absolutamente sem falhas em matéria de fé e prática. A Bíblia é verdadeira e fidedigna em tudo o que pretende ensinar. Autoritativa se refere à reivindicação da Palavra de Deus para que os crentes vivam a vida de verdadeiros servos debaixo do domínio de Deus, e por isso chamados para obedecer a Palavra de Deus.

Durante a Reforma, os reformados afirmaram Sola Scriptura (Somente a Escritura) para distinguir-se da Igreja Católica Romana, que afirmavam que a Escritura, a tradição (os ensinos da igreja), e os pronunciamentos oficiais da igreja estavam tudo no mesmo nível de igualdade em termos de autoridade. A isso os reformadores responderam que somente a Escritura é nossa autoridade para a fé e a vida.

Hoje a ameaça mais forte a essa visão elevada da Escritura não é dos que querem elevar os ensinos da Igreja a um nível de autoridade igual a da Escritura. Mas, é dos que querem rebaixar a Escritura, dizendo que não é Palavra de Deus em tudo, não é de Deus o que não for historicamente exato, e coisas como a ressurreição são mitos piedosos, e que não é de fato autoritativa para nossas vidas. Os cristãos reformados resistem firme a tudo o que ao olhar moderno e a mente iluminista possam considerar tolice, crêem que este livro é o meio pelo qual Deus do universo se comunicou com os seres humanos, os portadores de sua imagem. Acreditam que este livro é a Palavra de Deus.

Outra ameaça à elava visão da Escritura nos dias de hoje é o que pode ser chamado de visão da revelação de Deus como ainda não acabada. Muitos cristãos testificam Deus se lhes auto-revelam pessoalmente, interna, e excepcionalmente. Enquanto os reformados jungem inteiramente a obra do Espírito Santo com a Palavra, insistindo portanto que o Espírito e a Palavra trabalham juntos. Conforme Henry Stob, antigo professor do Seminário Calvino nos EUA, indicou sucintamente, “o Espírito sempre cavalga na garupa da Escritura”. Ou como o celebre Bernardo de Clairvaux disse, “A Escritura é a adega do vinho do Espírito Santo”.

Finalmente, uma palavra sobre a mensagem da Bíblia. É possível aos cristãos ficarem tão absorvidos em debates acerca da natureza e autoridade do Bíblia que perdem a sua mensagem positiva. A Bíblia não é antes de tudo um jogo de problemas a resolver; é uma história dramática de salvação do mundo por Deus. O ator principal nessa história é Jesus Cristo. O clímax dessa história é sua morte e ressurreição. Tudo isso e mais é o que a igreja tem em mente quando diz que é a essência da Bíblia é a “revelação redentiva”.

2. Criação, queda e redenção (Colossenses 1:15-20)

Criação/queda/redenção é uma forma basicamente reformada de organizar e de compreender a Bíblia e sua mensagem, e de compreender a história. Deus criou o mundo; o mundo caiu em pecado; Deus redimiu e redime o mundo através da obra de Cristo, uma redenção que um dia estará completa quando Deus criar novos céus e nova terra.

Os pastores e presbíteros sempre se deleitam quando os mais jovens se apresentam para fazer profissão da fé. No curso da entrevista, ao jovem é geralmente se pergunta, “o que significa ser cristão?” Os pastores e as presbíteros ficam satisfeitos com toda a resposta que inclui uma clara referência a Jesus Cristo, o Filho de Deus, e à sua morte e ressurreição para nossa vida eterna. Os pastores e presbíteros reformados ficam duplamente satisfeitos quando um jovem começa assim a resposta a essa pergunta,

“Bem, os cristãos crêem que no principio, Deus criou todas as coisas E então, o mundo caiu em pecado...”. Criação/queda/redenção é a maneira de povo reformado contar a história. É o roteiro da história e da Escritura. Mais serão acrescentados mais tarde sobre a importância da doutrina da criação. Aqui, entretanto, a importância crítica do ensino bíblico de que os seres humanos são portadores da imagem de Deus deve ser anotada.

Disse também Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança: domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todo o réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gen. 1:26-27). O ensino bíblico de que os seres humanos são portadores da imagem de Deus é central para o autoconhecimento e o conhecimento de Deus. É por causa da imagem de Deus dos seres humanos é que eles cumprem o mandato divinamente concedido de dominar sobre todas as coisas (V. 26) e vivem em comunhão uns com os outros.

Conforme diz João Calvino no inicio das suas Institutas, os seres humanos começam saber mais sobre si à medida que aprendem mais sobre Deus, e saber mais sobre Deus quando aprendem mais sobre si mesmos. Isso é assim porque os seres humanos, de fato, são portadores da imagem de Deus.

A verdade que os seres humanos são todos portadores da imagem de Deus tem implicações para qualquer posição ética que a igreja assume, inclusive, no que tange ao aborto, sexualidade, casamento, abuso, pena de morte, guerra, raça e deficiência física. Poucas doutrinas bíblicas deixaram marcas tão expressivas no discurso ético da igreja do que a doutrina da criação da humanidade à imagem de Deus. Certamente, nós somos “assombrosamente maravilhosos” (Salmo 139:14).

3. Graça (Efésios 2:8-10)

Graça é favor imerecido de Deus. Graça é amor incondicional e livremente dado por Deus às pessoas que não podem fazer nada para ganhar mas pode somente aceitá-la como um presente. Graça é o amor do pai da parábola do filho prodigo que o moveu a dar boas vindas e aceitar o filho perdido, não pelo que fizera ou não, mas simplesmente porque o pai amou a seu filho incondicionalmente. Graça é a assombrosa verdade de que nada há que façamos que induza a que Deus nos ame por isso mais ou menos. Deus nos ama porque nos ama. Deus nos ama porque é rico em amor.

Historicamente, quando os reformados discorriam sobre a graça enfatizavam que a salvação é um dom de Deus, não uma realização humana. Certamente, como Paulo diz,

Pois pela graça é que sois salvos mediante a fé; e isto não vem de vós, é o dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas.
(Efésios 2:8-10)

Os “cinco pontos do calvinismo” concernem às doutrinas reformadas que underscore a natureza radical da graça de Deus. Tem sido freqüentemente sumarizados pelo acróstico o TULIP (Depravação Total, Eleição (U) Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível e Perseverança dos Santos). Este acróstico, TULIP, tem sido por vezes mal interpretado como se focalizassem as falhas humanas. Mas, do fato, sua ênfase central é o graciosidade de Deus, e os ensinos bíblicos que se encontram por trás dela são alguns dentre os ensinos mais ricos de toda Escritura:

- Todo o ser humano e cada parte da sua existência humana estão corrompidos pelo pecado, a humanidade está sem auxilio e sem esperança a menos que seja operante a graça de Deus. Paulo diz, “estando vós mortes em seus pecados e delitos” (Efésios 2:1). Em sua condição decaída, os seres humanos não estão apenas enfraquecidos, doentes ou em desvantagem. Estão mortos, incapazes de fazer qualquer coisa, incapazes de crer, e sem auxilio de Deus.

- Em sua divina misericórdia, Deus escolheu os crentes e os chamou-os para si em amor antes mesmo deles nascerem, certamente, antes mesmo da criação do mundo. “[Deus] nos escolheu nele[Cristo] antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, e em amor nos predestinou para a adoção de filhos por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito da sua vontade”. (Efésios 1:4-5). Deus não elegeu seus filhos baseadas em seu pré-conhecimento de quem creria mas tão-somente “segundo o beneplácito de sua vontade”.

– A graça salvadora de Deus não é universal, mas particular, dada somente a quem Deus escolheu desde a eternidade.

Porque os que dantes conheceu, também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele fosse o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou. (Rom. 8:29-30)

- A graça de Deus, não é a decisão humana o fator decisivo na salvação. Os crentes não escolhem a Deus tanto quanto Deus escolhe os crentes. Jesus ensinou que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (João 3:5) e “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (João 6:44). Certamente, a fé é ato e decisão humanos. Mas mesmo esta fé é um dom de Deus.

- Pelo seu poder, Deus sustenta os crentes firmemente em sua mão e não permitirá que qualquer um ou qualquer coisa possa separar dele mesmo. Jesus diz,

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão”. (João 10:27-28)

Os crentes são sustentados firmemente pela mão por Deus. Os crentes não estão pendurados em Deus tanto quanto Deus de fato agarra os crentes. Isso foi chamado a segurança eterna do crente; perseverança dos santos. Conforme Paulo diz no fim de Romanos 8,

Quem nos separará do amor de Cristo? ... Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. (vv. 35-39)

Quando os calvinistas falam sobre de salvação, não encontram palavras para expressar o quanto ela é completamente uma obra de Deus – do começo ao fim, dom de Deus e graça de Deus, o que se expressa pelos termos do hino,
“em nada ponha minha fé
senão na graça de Jesus,
no sacrifício remidor
no sangue do bom redentor!”

4. Aliança (Jeremias 31:31-34)

Aliança é um dos mais ricos conceitos bíblicos usados descrever o relacionamento de Deus com seu povo. Aliança significa parceria, acordo entre partes, o que envolve promessas e obrigações.

É significativo que a Bíblia, particularmente o Antigo Testamento, retrate repetidas vezes Deus como quem se liga a si próprio com o seu povo por meio de promessa, de obrigação, de aliança. Deus não tem que prometer nada. Mas repetidas vezes o faz, a Noé, a Abrão, a Moisés, e a Davi, prometendo amá-los e estar com eles.

A Bíblia inteira é sustentada pelas grandes alianças que Deus fez com todas essas e outras pessoas. Além disso, a Bíblia é unificada em torno da aliança da graça. Uma das razões pela qual se tende a ouvir mais pregação sobre o Antigo Testamento nas igrejas reformadas do que em muitas outras igrejas é que os pregadores reformados não colocam o Antigo Testamento contra o Novo Testamento. Ao invés disso, vêem ambos os testamentos, o Antigo e o Novo, revelando apenas uma aliança da graça - que começa com a promessa de Deus a Adão e a Eva de que esmagaria a cabeça da serpente e termina na nova cidade de Deus descrita em Apocalipse 22.

O conceito de aliança – o próprio Deus ligando-se com seu provo com base em promessa e compromisso – é um rico conceito para a compreensão da obra salvadora de Deus nos dias de hoje. No louvor, Deus nos renova as suas promessas de aliança, e nós renovamos nossos votos de aliança a Deus. Na pregação declara-se e oferece as promessas da aliança de Deus. A Ceia do Senhor é um sinal da nova aliança de Deus. No batismo, Deus promete ser fiel a nossos filhos. Os membros da igreja fazem promessas a Deus e a uns aos outros.

Juntas essas promessas dão forma a uma corrente de compromissos, de mútua conexão a qual conhecemos como Corpo de Cristo, que é a Igreja. A membresia na Igreja é muito importante porque quando alguém se junta à ela, não é somente um nome que está sendo incluído no rol de membros de uma organização, mas há uma participação na aliança com Deus e com os outros crentes. De acordo cm esta compreensão aliancista da Igreja, deixar uma congregação por uma outra é uma questão muito séria porque quebra os elos de uma rica corrente de conexões aliançais e dos compromissos feitos em nível de igreja local.

A aliança é uma ênfase importante e estratégica para a igreja nessa cultura individualista que se presencia. Numa época em que a sociedade está tentando desesperadamente se postar frente a moralidade e os caracteres em voga, os cristãos compreendem o papel chave do cumprimento de promessas.

Nossa sociedade necessita de comunidades de promessas. A Igreja precisa de ênfase hoje sobre a aliança em nossa compreensão de Deus e da igreja.

5. Graça Comum (Mateus 5:43-48)

A graça comum de Deus, em distinção da graça salvadora, refere-se à atitude do favor divino que se estende à humanidade em geral; igualmente a crentes e descrentes. A igreja tem observado três evidências distintas da graça comum no mundo. Primeiramente, Deus dá dons naturais aos descrentes tanto quanto aos crentes. Não tem que ser cristão para ser um excelente pianista, advogado ou cientista. Em segundo lugar, Deus retém o pecado em todas as pessoas. Por causa do pecado, os seres humanos não são tão bons como poderiam ser; mas por causa da graça comum, não são tão maus como quaisquer um poderiam ser.

Essa é razão por que alguns descrentes parecem realmente se comportar melhor do que os crentes. as virtudes tais como paciência, coragem e a compaixão nunca perdem totalmente sua ressonância em todo portador da imagem de Deus.

Em terceiro lugar, Deus habilita ais descrentes a realizarem atos positivos de boa civilidade. Deus preserva o sentido básico da justiça cívica que permite as sociedades humanas funcionarem de modo ordeiro. A graça comum impede a sociedade, estragada e distorcida pelo pecado e pelo mal, de desintegrar-se totalmente.

O ensino da graça comum tem muitas implicações em como os cristãos vivem e servem no mundo. A graça comum de Deus é um modelo de graça com a qual os cristãos devam se envolver não apenas dentro da igreja e para com os crentes, mas no mundo e para com todos as pessoas. A graça comum encoraja aos crentes a desenvolverem pontos positivos de contato com descrentes para que vivam no mundo juntos e busquem fins comuns. Os cristãos devem dar atenção não apenas ao que os dividem, mas ao que os une com todos as pessoas. A graça comum é razão de os cristãos poderem apreciar os filmes, livros ou obras de arte produzidos pelos descrentes, vendo os como bons dons de Deus, ver nisso alusões à transcendência ou à graça

A graça comum lembra aos cristãos que o conflito desta era (que Abraham Kuyper chamou de “antítese”) é Deus e Satã, não entre cristãos e não-cristãos. A batalha não é entre dois grupos de pessoas mas entre dois poderes espirituais, que, significativamente, residem e entretece completamente cada pessoa.

O ensinamento da graça comum chama a igreja para ter múltiplos propósitos de ministério que correspondem aos múltiplos propósitos divinos. A despensa de alimentos do diaconato, o ministério de capelania hospitalar, e aconselhamento conjugal pastoral são todas partes da missão de Deus de salvar o mundo, mesmo que os recipientes destes ministérios possam não ser crentes ou jamais se tornarem crentes. O desejo profundo do cristão é que cada pessoa no mundo se curve a Jesus Cristo, ainda que dentro dessa missão abrangente de Deus, os ministros eclesiásticos em múltiplas situações sejam com múltiplas finalidades. Não se subordina o valor de um ministério a outro. Deus é glorificado em muitas coisas diferentes, e todos estes ministérios têm sua integridade e finalidade na missão abrangente de Deus salvar o mundo.

NOSSA IDENTIDADE - O QUE É SER REFORMADO? - PARTE 2 - TRÊS ABORDAGENS DO SER REFORMADO



Três abordagens do ser reformado

Observadores da tradição reformada identificam três principais ênfases ou “mentalidades” reformadas que floresceram no contexto cultural dos EUA, as quais com algumas reservas poderão ser adaptadas para o do Brasil.

A primeira ênfase ou mentalidade é a doutrinalista. Reformado aqui primeiramente se refere à forte adesão a determinadas doutrinas cristas ensinada nas Escrituras e refletidas nos confissões da igreja. A pergunta para os doutrinalistas é: o que cremos? Doutrinalistas apreciam especialmente Louis Berkhof, teólogo reformado cuja Teologia Sistemática é um sumário completo da doutrina reformada. Há outros como Charles Hodge. Modernamente há expoentes dessa visão: RC Sproul Sinclair Ferguson etc. No contexto brasileiro podemos mencionar, Revs Ludegero Morais, Antonio Almeida, Samuel Falcão, Adão Carlos do Nascimento... E muitos outros.

A segunda ênfase ou mentalidade é a pietista. Reformado aqui diz respeito à vida cristã e ao relacionamento pessoal com Deus. A pergunta para os pietistas é: como nós experimentamos Deus em nossa caminhada diária da fé? Os pietistas, num contexto marcado pela influencia européia apreciam especialmente Hendrik de Cook, um pastor que na Holanda promoveu o Afscheiding (Secessão), uma divisão havida em 1834 na igreja holandesa estatal que havia perdido a sua vitalidade teológica e espiritual. Essa visão contempla um critica á visão institucional duma igreja secularizada na prática. Podemos citar em nosso meio as figuras de Caio Fábio (já egresso da IPB), Antonio Elias dentre outros.

A terceira ênfase ou mentalidade é a transformacionalista. Reformado aqui concerne ao relacionamento do cristianismo e a cultura, a uma visão de mundo e vida e de Cristo como cultura de transformação. A pergunta para os transformacionalistas é: como relacionamos o evangelho com o mundo? Os transformacionalistas apreciam especialmente Abraham Kuyper, pastor, erudito, e primeiro-ministro dos Países Baixos que promover o movimento Doleantie (=padecer: segundo cisma) na Holanda nos anos de 1880, um movimento para forçar o desenvolvimento de uma cultura cristã e que impactou muito diretamente a Igreja Cristã Reformada da America do Norte e muito indiretamente e posteriormente a IPB. Quem na IPB,porém, podemos identificar com essa visão? Quem sabe as figuras de Alvaro Reis, Elias Abrão e Guilhermino Cunha?

Obviamente essas três ênfases ou mentalidades são sobrepostas. Nenhuma linha dura e rápida pode ser traçada entre elas. Representam também três abordagens distintas, tanto históricas quanto conceituais, e fornecem a estrutura para apresentação de dezesseis palavras-chaves ou frases que sumarizam o sotaque reformado.

Salienta-se que Brasil, as ênfases doutrinalista e pietista, são mais acentuadas. Pouco ou nada de transformaciolismo tem sido intencionalmente sugerido no contexto reformado brasileiro. A ênfase pietista tem sido misturada com influências pentecostais decorrentes mais de sérias distorções doutrinárias e/ou exacerbamentos litúrgicos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

NOSSA IDENTIDADE - O QUE É SER REFORMADO? - PARTE 1



Elaboramos este material para ser ministrado nas aulas de escola dominical da Igreja Presbiteriana Central de São Sebastião - DF.

Apresentação

Inspiramo-nos e nos embasamos na Declaração de Identidade da Igreja Cristã Reformada da America do Norte – CRCNA para refletir sobre a nossa identidade reformada enquanto Igreja Presbiteriana do Brasil. Fazemos isso em alusão aos 150 anos de nossa igreja no Brasil, 50 anos dela na nova capital, Brasília, no contexto de uma efeméride ate bem mais importante: os 500 anos do nascimento de João Calvino.

A Declaração de Identidade, nosso ponto de partida para os presentes estudos, decorreu da iniciativa da Junta de Educação Teológica dos seminários daquela denominação de exigir a elaboração de plano de carreira ministerial para que fosse apresentado pelos candidatos a pastor, daí surgiu a necessidade de uma declaração de Identidade denominacional que fosse endossada por eles. Depois essa declaração foi endossada também pelo Sínodo de 2002 da referida Igreja Cristã Reformada e posteriormente foi oferecida às igrejas locais, grupos de estudo, examinadores e membros individuais da CRCNA como recurso para a discussão e, se necessário, o refinamento da identidade “como povo de Deus no tempo presente”.

Preferimos nessa oportunidade refletir sobre quem realmente somos. Trata-se de uma parte importante do conhecimento do lugar que ocupamos na divina comunidade cristã mundial. Compreender quem nós somos hoje também requer a consciência de quem fomos e donde viemos e dos eventos que ajudaram a nos definir como igreja, e dos valores e dos princípios que nos guiaram ao longo do caminho.

Abrindo espaço para outros o fazerem, deixamos de abordar o tão importante quanto esta abordagem os estudo históricos sobre a vida e obra de Calvino, de como a IPB chegou e frutificou no Brasil e em Brasília. Certamente quem o fizer apresentará uma contribuição realmente inestimável.

Conforme salientou o Rev Peter Borgdorff, Diretor Executivo de Ministérios da Igreja Cristã Reformada (Cristã Reformed Church/CRC), com o que concordamos, “uma grande ênfase nos dias de hoje reside na comemoração e no realce de nossa diversidade. Os novos membros que vêm deste contexto de diversidade enriquecem a nossas fileiras denominacionais. Ao mesmo tempo, nossa igreja tem história, tanto cultural quanto teológica, e visão e missão que dão forma à comunidade”. É difícil, se não impossível, compreender hoje a nossa igreja sem saber algo dessa história, algo também de suas bases culturais e para este fim que oferecemos esses estudos.

E por que identidade reformada? É que a nossa igreja, IPB, se diz enraizada no movimento de Reforma do XVI, do ramo denominado calvinista ao que devemos, abaixo do Espírito Santo, a João Calvino e aos seus seguidores. A igreja egressa desse movimento foi formalmente chamada pela primeira vez de reformada, com o reconhecimento de divergência com a luterana, anglicana e, logicamente, com a católica-romana, além dos movimentos anabatistas, em 1571, por ocasião do Sínodo Nacional da Igreja Reformada da França quando se adotou naquele país a Confissão de Fé Gaulesa ou de La Rochele. Desde então a igreja reformada esteve presente ou até foi preponderante em boa parte da Europa Continental.

Na Escócia, a Igreja Reformada foi chamada de Presbiteriana em alusão ao seu sistema de governo, e depois passou a ser chamada simplesmente de Igreja da Escócia. Ocorreu que levas de protestantes da Inglaterra imigraram para os Estados Unidos quando estes ainda eram colônia britânica, na esteira da expedição do navio Mayflower. Dentre estes encontravam-se batistas, congregacionais e, principalmente presbiterianos, ou seja, reformados britânicos, irlandeses e escoceses. Esse grupo formou uma igreja que foi chamada de presbiteriana, e daí ficou uns reformados sendo chamados de reformados e outros de presbiterianos.

Um ponto interessante de discussão passou a ser o seguinte: seguiu os presbiterianos sendo reformados, ou entre estes e aqueles surgiram diferenças? Os que se denominam reformados são de fato reformados? Qual é a importância de ser reformado? Reformado é uma só ou tem vários modos de ser reformado?

De fato, os reformados de modo geral adotam outras confissões de fé da época da Reforma e os presbiterianos adotam a Confissão de Fé de Westminster. Diferenças doutrinárias não existem entre quem sinceramente adotam essa ou aquela Confissão de Fé (e existem muitas, Gaulesa, Escocesa, Helvética etc), há diferença entre os que se afastam dos ensinos das Confissões e por conseqüência das Escrituras e os que continuam com a Escritura e com as doutrinas bíblicas conforme expostas sistematicamente pelas confissões. E por isso formam comunidades verdadeiramente diferentes em seu modo de agir e de pensar.

E a questão é: será a IPB uma igreja reformada? Por herança sim. Na prática, porém, não temos sido de forma generalizada. É irônico constatarmos que, em alguns aspectos, conforme veremos no que constitui o ser reformado, há muitas igrejas co-irmãs nossas até pentecostais que são conscientemente mais reformadas do que algumas que ostentam em sua fachada o nome de presbiteriana. Então, quando há quem sequer são presbiterianos, apesar do nome, como enquadrá-los como presbiterianos e reformados? Verdade é que hoje ser (ou se dizer) presbiteriana não é garantia de ser reformada, sequer presbiteriana!

Em que pese essa confusão, há um anseio enorme por ser reformado. Por aprender a ser reformado. Por colocar em prática o ser reformado. Pois bem, nesse sentido, oferecemos estes estudos, na Escola Dominical da Igreja Presbiteriana Central, em São Sebastião/DF como uma forma de aprendermos o que é e como sermos reformados nos dias de hoje.


Prefácio

O que significa ser reformado? Muitos cristãos, inclusive membros de uma igreja que se diz reformada coma a IPB, podem questionar o valor, e mesmo o cabimento, de tal pergunta. Hoje em dia a ênfase do cristianismo recai mais sobre o que une os cristãos, e não sobre aquilo que os distingue.

De muitas maneiras, o impulso ao foco naquilo que os cristãos têm uns com os outros em comum é perfeitamente correto. Temos gasto tempo e energia demais naquilo que nos divide, em vez de no que nos une com outros cristãos. Jesus, no entanto, orou para que a igreja fosse uma (João 17:27). Paulo corrobora o fato de que o corpo de Cristo é um (1 Cor. 12:12; Efésios 4:4-6). Que declaração de missão e visão que qualquer Igreja poderia querer ou necessitar senão a grande chamada de Paulo a que “cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4:13)? Seria difícil acrescentar mais ênfase ao que une os cristãos uns com os outros.

Além disso, o inimigo da igreja cristã nos dias de hoje não são outros cristãos, sejam eles luteranos, metodistas, católicos romanos ou pentecostais. O inimigo número um da igreja é o mortal secularismo que ameaça todos os cristãos e contra quem devem estar juntos na fé e na ação comuns. Certamente, de muitas maneiras, devemos nos juntar com outros cristãos. As igrejas locais trabalham freqüentemente junto com outras igrejas em ações como banco de alimentos e outros programas assistenciais. As agências denominacionais têm freqüentemente ministérios mundiais de colaboração com outras igrejas e organizações religiosas.

É tão-somente nesta perspectiva que nos dispomos a estudar o que nos faz reformados em distinção de outros co-irmãos cristãos e construir a nossa própria declaração de identidade sobre o que isso significa.



O sotaque reformado

Todos os cristãos falam algum tipo de “sotaque”, um particular sotaque teológico. Não existe o que em si seja o puro idioma cristão. Imagine pessoas do Piauí, Minas Gerais e Rio Grande do Sul tentando falar com o mesmo sotaque. Não vai dar certo – não por que essas pessoas desagradam de tal prática, mas por que os seus linguajares naturalmente se moldam às localidades aonde residem. Pessoas que particularmente vivem juntas desenvolvem maneiras particulares de se expressar. A “cultura” é a acumulação destas particularidades, inclusive de experiências compartilhadas, de significados compartilhados, e de maneiras de vida compartilhadas. A particularidade da comunidade humana é realmente parte da diversidade maravilhosa da criação de Deus.

Do mesmo modo, os cristãos, de várias denominações, ainda que trabalhem e adorem juntos, desenvolvem maneiras particulares de expressão. Não existe um discurso cristão inteiramente puro, teologicamente neutro. Aqueles que individualmente tiveram experiências comuns de fé e de vida desenvolveram maneiras particulares de expressar sua fé e de adorar a Deus. Com certeza quando essas diferenças conduzem à oposição e alienação, então saudáveis diferenças se transformam em pecaminosas divisões. Mas de qualquer forma, os cristãos falarão sempre com os seus particulares sotaques teológicos,

Certamente, esta particularidade é também profundamente bíblica. A imagem de Primeira aos Corinthians 12 da igreja como um corpo destaca a unidade da igreja (um corpo) e a diversidade da igreja (as mãos e os pés e os olhos). O ensino deste grande capítulo está claro: A igreja biblicamente saudável tem uma profunda unidade e uma rica diversidade. Certamente, uma das verdades bíblicas profundas é a verdade da unidade e dessa multiplicidade. Deus trino mesmo é um e três.

Não há nada em si pecaminosa ou divisionista quando os reformados ou outros grupos de cristãos tentam compreender e desenvolver seus próprios sotaques teológicos. No caso, tal auto-compreensão, enquanto fortalece as mãos ou pés ou olhos particulares do corpo, fortalecem o corpo inteiro em seu testemunho unido ao mundo.

Algumas pessoas às vezes utilizam o termo reformado ou distintamente reformado como um sotaque teológico falado somente por algumas poucas pessoas, e como se fosse um sotaque que tenha pouco em comum com a ampla igreja cristã. Não há nada que seja tão falso.

O sotaque reformado é muito maior do que a IPB com sua história particular. Prevalece em países ao redor do mundo, tais como Hungria, Coréia, Indonésia, Escócia e Madagascar. O Catecismo de Heidelberg, somente uma de muitas confissões reformadas, foi traduzido para trinta línguas.

Além disso, o cristianismo reformado tem muito em comum com a igreja cristã universal. O cristianismo reformado está fortemente escorado na ampla ortodoxia cristã que remonta à igreja do Novo Testamento. A parte reformada dos cristãos com todos os cristãos restantes compartilham uma fé comum no Deus trino que criou os céus e a terra, cuja segunda pessoa encarnou em Jesus de Nazaré, e cuja terceira pessoa tem revestido a igreja pelo divino Espírito Santo. Os reformados, juntos com os cristãos de todos os tempos e lugares, afirmam o propósito salvífico de Deus de reunir todas as coisas em Jesus Cristo, a missão da igreja de proclamar estas boas novas, e a esperança do retorno de Cristo em gloria para reinar nos novos céus e na nova terra. Os reformados confessam sua fé nas palavras credo dos apóstolos junto com a igreja universal.

Estes estudos simplesmente busca articular alguns dos sotaques particulares da tradição reformada, mas da maneira em que nos seja acessível. No caso, uma expressão mais inclusiva da perspectiva reformada o que não é somente desejável, mas essencial – já que a perspectiva reformada existe para fornecer fontes conducentes à unidade e ao objetivo final para a IPB.


A árvore genealógica
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Um modo de explicar a tradição reformada é situá-la como família de igrejas na árvore genealógica mais ampla da igreja cristã. O quadro seguinte mostra como a igreja cristã se desenvolveu no decorrer dos séculos.

A Igreja Cristã esteve unida até o Século XI, quando a igreja ocidental (a Igreja Católica Romana) separou-se da Oriental (a Igreja Ortodoxa). No Século XVI, novos ventos do Espírito sopraram sobre a Igreja Católica Romana, e a Reforma Protestante teve lugar. Os cristãos re-descobriram a mensagem central da Bíblia de que somos salvos somente pela graça mediante a fé. A partir da Reforma Protestante surgiram quatro ramos principais – Anabatista, Reformado, Luterano e Anglicano. A ordem em que estes quatro ramos são listados da esquerda para a direita é significativa.

Quanto mais para esquerda é o afastamento, mais radical é a ruptura em face da Igreja Católica Romana. Em termos de formalidade na adoração, este quadro se move do mais (lado direito) para o menos formal (lado esquerdo); em relação aos Sacramentos, de mais para menos central na adoração; quanto ao governo da igreja, de mais para menos hierárquico. Nesta família de igrejas centralizadas na Europa, a perspectiva reformada representa freqüentemente um amplo meio termo. Nesse sentido, os reformados procuram se situar na árvore da família protestante, pretendendo pensar em termos de perspectiva reformada como se a IPB se encontrasse num meio termo entre o liberalismo e o fundamentalismo dos dias presentes. Apesar disso, os reformados compartilham com o fundamentalismo de uma fé indiscutível no subrenaturalismo e com o liberalismo de um desejo de que a fé cristã seja culturalmente engajada.

IGREJA CRISTÃ - PRINCIPAIS RAMOS
Século I ao XI Igreja Cristã


Século XI Católico Ocidental Ortodoxo Oriental
Século XVI Protestante Católico Romano Ortodoxo Oriental


Nota: A seguir, quando mais distante à esquerda, mais radical é a ruptura perante a Igreja Católica Romana.


Século XVI Igrejas Protestantes
Século XVI Anabatistas Reformada Luterana Anglicana
Século XVII Quakers Puritanos
Século XVIII Metodistas
Século XVIII Igrejas livres
Século XX Pentecostais




Mas à tradição reformada, da qual a IPB faz parte, não cabe realmente o continuum entre estes dois extremos norte-americanos. A maioria dos reformados distingue-se fortemente do liberalismo, em virtude da sua visão inadequada de inspiração e autoridade da Escritura, seu anti-sobrenaturalismo, e seu descuido em falar acerca do pecado pessoal e da necessidade de arrependimento e fé em Cristo para a salvação. Além disso, os reformados também se distinguem fortemente do fundamentalismo, por causa do seu anti-intelectualismo e da sua suspeição em relação à ciência e educação de que decorre a falta da ênfase sobre a doutrina da criação; sua falta do engajamento cultural; e sua tendência em enfatizar a domínio de Cristo no mundo vindouro e não neste, tendência que emerge a partir de uma compreensão dispensacionalista da história pela qual se entende que o reino de Deus é ainda apenas uma realidade futura.

Tradicionalmente, a perspectiva reformada representou uma terceira via completamente distinta do liberalismo e do fundamentalismo, o que não se define nos termos do atual embate norte-americano. Os reformados são “protestantes confessantes” cuja postura não é primeiramente definida tão polemicamente (em confronto com os liberais ou com os fundamentalistas), mas historicamente por uma tradição teológica que remonta a João Calvino e aos Reformadores e a Santo Agostinho.

Uma maneira útil de localizar o ramo reformado na árvore da família norte-americana está no relacionamento com os evangélicos ou evangelicals. O termo evangélico é usado diferentemente por pessoas diferentes. Quando os luteranos evangélicos usam o termo evangélico, querem se referir a uma teologia ortodoxa e cristocêntrica. Para eles é completamente possível ser parte de uma denominação protestante histórica e ser evangélico e não sentir nenhuma tensão entre ambas as realidades. Outros usam os termos evangélicos e fundamentalistas como sinônimos, o que tem significados completamente diferentes.

O termo evangélico é mais freqüentemente usado pelos que desejam se distinguir do fundamentalismo e freqüentemente por muitas das mesmas razões pelos reformados que desejam se distinguir também do mesmo fundamentalismo.

Sobretudo, freqüentemente mesmo os evangélicos vêem significativa sobreposição nos termos evangélicos e reformados. Instituições tais como Seminário Fuller, Seminário Gordon Conwell, Wheaton College, a Revista Christianity Taday e a Comunidade Cristã Universitária – ABU, no Brasil, e pessoas como John Stott, J.I. Packer e Chuck Colson descrevem-se como evangélicos. O que também não deixa de ser verdade mesmo que não pudessem ser chamados reformados confessionalmente ou denominacionamete, ainda assim se considerariam reformados teologicamente em muito de seus ensinos. Da mesma maneira, muitos reformados identificam-se positivamente (e corretamente) como evangélicos.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

APRESENTANDO A CORRENTE PROTESTANTE ORTODOXA




A palavra corrente tem várias acepções. Há a que evoca elos de aço ou de outro material rígido usado para prender objetos menores aos maiores, móveis aos imóveis, fracos aos fortes. Nesse sentido existem correntes a amarrar pessoas ou outros semoventes subjugando-lhes a liberdade.

É terrivel a imagem de correntes prendendo aos punhos ou tornozelos individuos, como se fossem parte de seus próprios corpos, a indicar a realidade do cativeiro ou escravidão. É da mesma forma chocante as pesadas, rudes e ásperas amarras que prendem sentenciados pela justiça movidos de um local a outro de prisão tendo que arrastar correntes da vergonha pelo delito que se pratica.

Não é nesse sentido que empregamos o termo corrente, em Corrente Protestante Ortodoxa - CPO. Fazemo-lo no sentido histórico, mas este está mais para o sentido que se emprega para indicar movimento inicial, seguido de fluxo, ao sabor da vida que se expressa pelo suave bafejar de ar que provoca tênues golfadas de vento, que assopram cabelos, refrescam faces, prenunciam mudanças no tempo. Vai o tempo seco, segue a chuva. Muitas vezes, por certo, o vento não prenuncia nada, exceto a sua presença, o que, aliás, faz toda diferença.

De qualquer sorte há uma voz no ar, no vento, a ser percebida, a nos comunicar que não há nada, no tempo ou no espaço, ainda que tão sufocante ou insuportável, que seja permanente e imóvel, pois "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim, é todo aquele que é nascido do espírito". (Jo 3:8)

Pode soar estranho a muita gente que o vento possa ser como que canalizado, e aqui não me refiro aos canais mais estreitos, mas aos que têm as dimensões do próprio volume do ar em movimento, às correntes, às raias ou aos caminhos. Então há um movimento ordenado dos ventos? Creio. E ao crer, posso afirmar que sim, e por incrivel que pareça à mente moderna tão acostumada ao dogma do caos e do acaso universais reinentes.

Mas ao que me refiro não te trata de vento qualquer.

Há por certo ventos e movimentos "menores" ainda irresolutos, errantes. Ventos vagabundos, que parecem "soprar onde quer" mas que em verdade voam sem propósito algum. Isso existe. Mas esses ventos são como que domados pelas correntes que impõem determinada ordem em meio aos mais diversos caos. É o que creio. É o que tem comprovado a minha experiência. Digo-o aos mais jovens: nisso vocês podem crer! Acreditem na ordem e na decência que galopam a garupa do cavalo do Espírito!

Vejam os ventos atmosféricos lá de cima, determinam ou impõem ordem aos ventos cá embaixo. Vejam os ventos incautos e desordenados arrogantes e impávidos ao nascer e vejam em seguida perdendo potencialidade de virar redemoinhos, ventanias, tornados e furacões. Oh, qualquer sopro provocado por um calor a mais, devido a qualquer combustão, poderiam causar desastres se entregues aos seus próprios ânimos e empáfia. Parece que qualquer sopro poderia redundar em furacão não fosse o predominio das correntes de ar atmosféricas. Correntes, aliás, que ao seu arrefecimento provocam até calmarias enfadonhas, tristes, modorrentas... animadas de novo por novas correntes de renovação que em movimento levam e trazem odores que enriquecem a vida, que dão alento às velas que movem de novo as naus de todos os tamanhos.

Correntes como essas nas superficies dos mares, causam correntes submersas correntes de água de um mar em constante movimento. Canais de vida que levam toda a tralha e trazem a renovação. Que conhecem ilhas e praias e plagas jamais vistas e alcançadas.

Dessa imagem pitoresca trazemos para a visão dos vasos sanguineos a indicar correntes também. Correntes de vida, de transformação, de purificação, de ativação de emoções, de alegria e que fazem funcionar a vida cerebral da sede da alma que funde e confunde cabeça e coração.

Dai que provém a idéia das várias correntes de pensamento. E pensando em correntes de pensamento, por que pensaríamos mais em aprisionantes correntes de aço e menos em movimentos, canalizações, transmissões, dissapações, emanações de fé, de amor, de sentimento, de louvor, de puras intenções e de anseios?

Nâo proponho ser qualquer porta-voz oficial de uma corrente de pensamento, mas tão-somente mais um representante que gostaria mesmo de ter alguma voz e vez no seu coração que compartilha dessa corrente ou com ela gostaria de corresponder.

Disse corrente histórica. A história é saga das correntes de pensamento politico, religioso, economico, social, cientifico. Aliar-se a essa corrente protestante histórica representa deixar ser levado pela que foi seguida e sugerido por Lutero. Nesses tempos de twitter é bom refletir que Lutero foi seguidor tanto quanto foi seguido por seus seguidores. Dentre estes podemos citar Calvino. Destes dois segue uma pleiade enorme de seguidores e guias Melanchton, Knox e por ai vai...

E o que diremos de ortodoxa. Vivemos em dias de desagregação e confusão. Ousamos a afirmar que não pretendemos abandonar o padrão de doutrina e de prática sustentada e vivida pelos nossos antepassados. Somente isso.

Não se confunda esse nosso compromisso com o padrão com a indisposição para a contextualização e assimilação das descobertas das verdades absconsas por tradições antigas, ainda que isso represente uma análise profundamente critica de tudo o que leva consigo o prefixo "neo". Definitivamente, não é por que é neo, novo, que será certo ou conveniente. Arriscamos dizer ainda que temerariamente que não existe neo-ortodoxia. Ou é não é ortodoxia. E ortodoxia é conforme foi no inicio e seguiu sendo e sempre será.

Dai dizermos que a ortodoxia não é visão literal particular ou de grupos, isso é fundamentalismo, na verdadeira acepção desse termo. Ortodoxia é a conformidade com os padrões confessionais protestantes que abraçam desdes os 39 Artigos de Fé anglicanos, às várias confissões reformadas e às luteranas em conexão com os credos e confissões dos concílios antigos.

Essa se compromete com os cinco sola: Sola Escriptura, Solo Christus, Sola Gratia, Sola Fide e Solo Deo Glória.

Bem vindo, à sua e a todos nós Corrente Protestante Ortodoxa.